A Pedagogia, enquanto ciência, não ocupa-se ou limita-se às questões escolares, ao contrário, é do interesse dessa ciência toda e qualquer manifestação de cunho intencional que exerça sobre os sujeitos sociais uma direção cognitiva e/ou comportamental. Por isso, o noticiário local pode ser considerado tão pedagógico quanto a disciplina escolar. É claro, não estou dizendo tais questões possuem a mesma natureza, cada instância pedagógica possui as suas particularidades, assim, não se pode compreender diferentes práxis pedagógicas sem que se vá a raiz das suas concepções e intenções.
Dito isto, vejamos um caso particular: a pedagogia do noticiário local mais popular do estado do Ceará, diariamente exibido pouco antes do meio-dia. Serei mais específico a respeito do nosso objeto de análise, vejamos a pedagogia relacionada a forma com que são tratados aqueles pobres diabos que cometeram crimes como pequenos roubos e furtos, ou até aqueles que chegam a tirar a vida de outrem. Como são retratados esses personagens no discurso da mídia local? Uma análise atenta ao modo como tais crimes são relatados no noticiário demostra como o discurso midiático transforma o mais tosco ladrão de galinhas em um verdadeiro "mestre do crime".
O mais trivial roubo é noticiado como se houvesse uma estratagema digna de um roteiro de 007. O crime mais banal e burro torna-se uma meticulosa estratégia tão bem articulada, planejada e executada que não nos surpreendemos quando a nossa tão bem equipada e competente polícia alega não ter capturados os "meliantes", ou que será aberta uma investigação que, possivelmente, nunca será encerrada, a menos que o crime em questão tenha repercussão nacional, neste caso, a investigação pode até ter um desfecho diferente, quem sabe até ser bem-sucedida.
Bem, e porque há uma pedagogia na forma que o discurso é produzido e reproduzido pelo noticiário local? A resposta só nos pode ser dada quando nos voltamos para a realidade concreta em sua totalidade; os miseráveis, segundo a pedagogia do noticiário burguês, nada mais são do que indivíduos maléficos que tramam contra a sociedade e seus crimes nada mais são do que a manifestação do próprio mal, ou seja, ocultam-se aí as reais motivações e necessidades daqueles que estão em uma vida de crimes, mas que não são eles próprios o crime em si. Não quero com este argumento dizer que os crimes de qualquer natureza sejam aceitáveis; não são e jamais deveriam ser. Entretanto, é preciso esclarecer que o mundo real é bem mais complexo do que nos faz crer o noticiário local. Nas palavras do jornalista Luís Sérgio Santos: "A formação de uma corrente de opinião é o objetivo final das diversas mensagens veiculadas através dos meios de comunicação de massa."
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